História da Raça

      Entre as pessoas envolvidas com a criação de cavalos, de um modo geral, existe certo desconhecimento acerca de embocaduras, suas funções e seus usos mais corretos. Cria-se em torno do assunto a expectativa de que estes instrumentos são capazes de grandes feitos, como, por exemplo, a correção de vícios e defeitos adquiridos por animais devido a um adestramento incorreto. Na verdade, as embocaduras, ainda que úteis na solução de alguns problemas advindos de uma má equitação, são peças importantes num processo gradativo de adestramento, embasado em técnicas seculares e comprovadamente de grande eficácia.

      Entendemos por embocadura todo o instrumento usado pelo cavaleiro para atuar na boca de um cavalo, pelo comando de suas mãos, através das rédeas. Durante a doma racional e nas primeiras montadas, é comum o uso da focinheira, que, envolvendo o focinho do cavalo, permite o cavaleiro atuar com as mãos, obtendo controle do antemão de forma semelhante ao que acontece pelo uso das embocaduras. Diferente destas, no entanto, a focinheira não age dentro da boca do cavalo. Temos, então, dois tipos básicos de embocaduras, propriamente ditas: o bridão e o freio, com suas características específicas.

      Antes de entrarmos propriamente no assunto, é importante que sejam definidos conceitos que certamente irão auxiliar na compreensão das mais corretas formas de utilização das embocaduras. Inicialmente é bom que se definam “apoio” e “contato”, numa linguagem usual da equitação: apoio é a pressão exercida pelo cavalo sobre a embocadura. Este apoio franco é fundamental para que o animal possa desempenhar suas funções com equilíbrio e impulsão satisfatórios. Contato é a ligação promovida pelo cavaleiro entre sua mão e a boca do animal, através de tensão nas rédeas. Apoio e contato são fatores interdependentes. O cavalo não tem como se apoiar na embocadura se o cavaleiro não promove uma tensão nas rédeas, estabelecendo o contato. O cavaleiro, por sua vez, não tem como entrar em contato com a boca do animal, se o mesmo se recusa a apoiar, fugindo da embocadura por medo e defesa.

      Definindo-se sucintamente a sequência dos passos que se deve dar no processo de adestramento básico, inicialmente, é fundamental que se projete o cavalo contra a embocadura, pelo uso das pernas, a fim de que o mesmo se apoie. Neste exercício, o cavalo ganhará ritmo e impulsão, e o apoio será consequência do trabalho. Estando o animal bem apoiado, deve-se procurar obter a elevação da base do pescoço. Esta só será conseguida com o aumento da impulsão e com um razoável engajamento dos membros posteriores. Na sequência deve-se promover o flexionamento da nuca do animal, que dependerá quase sempre da descontração do maxilar. Diz-se de um cavalo engajado, com pescoço oblíquo e bem sustentado, e com a nuca devidamente flexionada, que se encontra em “atitude”. Passemos às embocaduras:

      O bridão se caracteriza por apresentar uma única argola onde se atam rédea e cabeçada. Esta argola encontra-se normalmente na mesma altura do “bocado” (parte da embocadura que age dentro da boca). Estas definições se traduzem no fato de que a ação do bridão se dá de forma direta, sem efeito multiplicador de forças.

      O freio apresenta argolas distintas onde se atam a cabeçada e a rédea. O bocado encontra-se normalmente numa posição acima da argola onde se atam as rédeas. Enquanto a força aplicada pelas mãos do cavaleiro chega à boca do cavalo com a mesma intensidade quando do uso do bridão, o uso do freio promove um efeito multiplicador desta força, pela ação de alavanca que o caracteriza. E é esta dualidade de ações que diferencia basicamente o bridão do freio.

      Enquanto o bridão atua nas comissuras labiais, e por isso precisa ser ajustado a elas, o freio atua nas barras, região da mandíbula desprovida de dentes. Tanto por suas características de ação como pela região em que agem no cavalo, bridão e freio têm efeitos diferentes: o bridão age levantando a cabeça e o pescoço do cavalo, enquanto o freio tem ação abaixadora da cabeça, além de induzir o flexionamento da nuca. De um modo geral, o bridão é uma embocadura de ação mais suave que o freio, e pode ser usado até o final do adestramento, desde que o cavaleiro seja habilidoso e o animal responda satisfatoriamente aos comandos.

      Freio e bridão têm características próprias que resultam na maior ou menor intensidade de sua ação. Chamamos de leve uma embocadura que tem efeitos suaves, e pesada, aquela cujo efeito é mais forte, mais atuante. De forma comum a freio e bridão, a embocadura será tanto mais leve quanto mais grossa for a espessura do bocado, sendo mais pesada a embocadura de bocado mais fino. Isto porque quanto mais fino o bocado, mais cortante será sua superfície de contato, portanto mais agressiva, mais atuante. O bocado pode ainda ser rígido ou articulado, sendo este último mais leve por permitir que a força de ação das mãos seja dissipada por sua articulação. O material no qual o bocado é constituído pode ainda gerar alterações de efeito nas embocaduras. Um bocado de borracha será menos agressivo que um de aço, portanto mais leve. O bridão de borracha tem seu uso recomendado para animais novos, que ainda são trabalhados com a focinheira, e servirá então para que o cavalo se habitue com uma embocadura dentro da boca. Neste caso, o bridão de borracha não deve ser acionado pelas rédeas, mas sim ajustado à boca pela cabeçada, e as rédeas só devem se atar à focinheira.

      Além destas características comuns a freio e bridão, outras particulares a cada uma das embocaduras resultam também em ações de maior ou menor intensidade. No bridão, um bocado que corre livre na argola absorve melhor impactos provenientes dos movimentos, diferente do que ocorre com bocados fixos nas argolas. Desta forma, quanto maior o diâmetro das argolas mais livre ficará o bocado. Para animais em início de adestramento, é sugerido o uso de um bridão leve (grosso), que permita um apoio franco do cavalo. Sugere-se um bridão de “agulha”. Esta embocadura se caracteriza por apresentar prolongamentos laterais a partir das argolas, chamadas de agulhas. Quando se procura desviar lateralmente a cabeça e o pescoço de um animal novo, ainda sem flexionamento, indicando-lhe a direção a seguir, é comum que o mesmo apresente uma reação a este comando, não cedendo à ação do cavaleiro. As agulhas vão impedir que o bridão corra e venha a sair da boca do animal, por estarem apoiadas na face externa da bochecha.

      A elevação da base do pescoço, como já citado anteriormente, dependerá do aumento do engajamento dos membros posteriores, e da resistência das mãos do cavaleiro sobre a embocadura. Esta mudança de postura pode ser obtida com o uso ainda do bridão de agulha, ou mesmo com o bridão em “D”. que favorece o apoio. O motivo veremos mais tarde.

      A descontração do maxilar do cavalo é uma meta a ser perseguida pelo cavaleiro, principalmente quando monta animais de apoio muito pesado. Algumas embocaduras são dotadas de um acessório que favorece a descontração do maxilar. São pequenos anéis de cobre, que envolvem a parte central do bocado. Sob o efeito destes anéis o animal é induzido a “brincar” com a embocadura, mascando-a suave e continuamente, na tentativa de degluti-la. Chama-se de efeito bomba a subida e descida do bocado quando desta atitude do cavalo. Este efeito sinaliza para o cavaleiro a descontração do maxilar. Observa-se a produção de espuma na boca do cavalo, provocada por uma salivação intensa. Por este motivo dá-se a este acessório o nome de salivador.

      Algumas características das embocaduras podem favorecer ou inibir a descontração do maxilar. Os bocados articulados favorecem tal descontração, por serem elementos móveis na boca do animal. Da mesma forma os bridões de argola, por permitirem a movimentação do bocado para cima e para baixo, em favor do efeito “bomba”.

      Cavalos que não se apoiam com confiança na embocadura podem ter este apoio favorecido por instrumentos de bocado fixo. O bridão em “D” é um exemplo que, ao contrário do bridão de argola, limita a movimentação para cima e para baixo do bocado.

      Em animais que se apresentam já bem apoiados e com um pescoço com base sustentada, bem posicionado, deve-se promover o flexionamento da nuca. Como já foi citado, o bridão de argola facilita a descontração do maxilar, indispensável para se obter o flexionamento da nuca, passo seguinte ao posicionamento correto do pescoço. As embocaduras dotadas de salivador podem ser um recurso avançado para animais que, não descontraindo o maxilar, não flexionam a nuca.

      Os freios apresentam um número maior de detalhes que alteram a intensidade de sua ação. O comprimento das câimbras, canas ou pernas do freio (hastes laterais que se prolongam a partir do bocado), e sobretudo a diferença entre suas porções inferior e superior, tornam o freio mais leve ou mais pesado, sendo mais leves os que apresentam a porção inferior mais curta, por um menor efeito multiplicador de força (alavanca). O fato de ter uma articulação entre as câimbras e o bocado torna o freio mais leve do que aquele que tem o bocado fixo às câimbras. Esta articulação amortece impactos e dissipa forças, tornando o freio mais leve. A forma do bocado também interfere na intensidade de ação do freio. Alguns freios apresentam uma curvatura no bocado, a passagem de língua, que como o próprio nome indica, permite a acomodação da língua sob a mesma. Desta forma o bocado se apoia diretamente nas barras, impedindo que a língua, entre barras e bocado, amorteça seu efeito. Com a passagem de língua, portanto, o freio torna-se mais pesado. O ajuste da barbela é ainda fundamental para o efeito do freio. Não deve ser muito apertada, por tornar muito forte sua ação, nem tão frouxa, o que resultará numa ineficiência da embocadura. Seu ajuste deve ser tal que permita pequena liberdade entre uma posição mais relaxada do freio, por relaxamento também das rédeas, e uma posição mais ajustada, ativa, pelo contato do cavaleiro através das rédeas.

      Em casos mais rebeldes, em que o animal não aceita o flexionamento da nuca pelo uso do bridão, pode-se usar o freio, que pela própria forma de ação não só é mais pesado, geralmente, que o bridão, como também promove o flexionamento da nuca. Deve-se ter sempre em mente que tal mudança de postura deve ser conseguida pela descontração do maxilar, e nunca pelo uso da força. Reforçando o que já foi citado, as embocaduras com salivador favorecem o flexionamento da nuca, pelo efeito de descontração do maxilar. Deve-se cuidar, no entanto, quando do uso de embocaduras com salivador, para que seu efeito não venha a ser tal que desapoie o animal pelo excesso de descontração do maxilar! O uso das pernas gerando impulsão e já indispensável em qualquer fase do adestramento, é também de fundamental importância para que se evite estes casos.

      Vulgarmente chamado de “freio-bridão”, o freio “Pelhan” é uma embocadura que apresenta características próprias, com argolas diferentes para rédeas se atarem, agindo distintamente como freio e bridão. Se as rédeas se atarem nas argolas do bridão, o efeito será desta embocadura. Caso as rédeas se encontrem atadas nas argolas de freio, a ação passa a ser desta outra. Pode-se ainda usar o Pelhan com quatro rédeas: duas atadas às argolas de freio e outras duas às argolas de bridão. De acordo com a posição das mãos, as ações se dividem com efeitos de freio e/ou bridão. Para tal, são necessárias habilidade e experiência do cavaleiro.

      Algumas embocaduras especiais apresentam características próprias, como bocados finos e retorcidos, pernas muito longas, passagem de língua demasiadamente alta, enfim, cuja utilização quase nunca é apropriada para cavalos marchadores. Por apresentar um bom temperamento de sela, fácil aceitação dos comandos e ainda uma conformação leve, o Campolina dispensa para seu adestramento estas embocaduras especiais, principalmente se o adestramento for executado com técnica e por cavaleiro competente.